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“Morte Porc”

Os hábitos alimentares são o retrato económico-social das populações, mas são igualmente quadros de conduta e de identificação cultural. A “Matança do Porco” é o costume que marca os meses de Inverno da nossa serra e constitui uma importante manifestação e celebração da união e reunião familiares. De facto, esta tradição, reveladora acima de tudo dos processos antigos de abate, corte e conservação, bem como, do saber adquirido ao longo dos tempos, que passa de geração para geração, desempenha uma função social relevante nas comunidades rurais, onde se apela à participação e ao trabalho colectivo. 
 

Uma “Morte Porc”…

Durante o ano andou a engordar e agora chegou a altura. 
Fazem-se convites, aparecem familiares e amigos para ajudarem nas lides. O porco compra-se pequenino (bacorinho), em Janeiro, e vai-se engordando com farinha, batatas, milho e landes. Um ano depois é altura de o matar, combina-se o dia, convidam-se os amigos e fazem-se filhós de véspera. No dia combinado, as tarefas estão bem definidas entre homens e mulheres. Ao “matador” cabe a tarefa de espetar a faca no animal, contando com a colaboração de outros ajudantes para o agarrar. Depois é chamuscado, lavado e, por fim, aberto para se retirar as vísceras. As mulheres tomam conta das banhas, entretanto picadas, e põem-nas a fritar, tratando igualmente das bisnagas, a ‘bucha’ da manhã dos homens. Estes têm a tarefa de cortar a carne, enquanto as mulheres arranjam as tripas e as lavam em água corrente. Em animada confraternização e entre um copo de aguardente, vai chegando a hora do almoço – arroz de bofe e cachola com batatas (semelhante à cabidela) – e o dia vai passando, com os homens a jogar à carta e a cantar ao despique, enquanto as mulheres continuam a tratar as tripas.
No dia seguinte, os convidados chegam um pouco mais tarde, mas já se procede à desmancha do porco, assunto combinado entre a patroa e o patrão. Destina-se o aproveitamento das peças de carne, nunca esquecendo o lombinho do Senhor Prior, e almoça-se, geralmente, legumes guisados com o coração do porco, seguindo-se o «fregeneco». De tarde, enchem-se as morcelas e os «molhos» que vão cozer lentamente, ficando a prova guardada para acompanhar o cozido de couve ao jantar. Como resultado final do aproveitamento de todo o porco, enchem-se os «talegos» e coze-se a apreciada «morcela de farinha».
Chegada a hora da abalada, os donos da casa oferecem um “pedacinho” do porco a cada convidado, em reconhecimento da entreajuda ao longo destes dois dias.     
Todos estão contentes, deitam-se saúdes e no final:

“Vá lá mais um qu’é pra’ abaladiça”

 

Produção de Enchidos

É desta tradição que derivam os famosos enchidos tradicionais de Monchique, como as farinheiras as morcelas, as chouriças e os “molhos”, sem esquecer o presunto.
Hoje em dia já existem fábricas de enchidos que se encontram legalizadas e a produzir ao longo de todo o ano.